Doutora em Filosofia da Educação pela USP
(Instituto da Mulher Negra)
A descriminalização do aborto, uma bandeira histórica do movimento feminista nacional,
encontrou nova e perversa tradução de política pública na voz do governador do estado do Rio
de Janeiro, Sérgio Cabral. O governador defende a legalização do aborto como forma de
prevenção e contenção da violência, por considerar que a fertilidade das mulheres das favelas
cariocas as tornam fábrica de produzir marginais .
Uma reivindicação histórica dos movimentos de mulheres de efetivação dos direitos
reprodutivos das mulheres e de reconhecimento do aborto como questão de saúde pública
sobre a qual o Estado não pode se omitir é pervertida em proposta de política pública eivada
de ideologia eugenista destinada à interrupção do nascimento de seres humanos considerados
como potenciais marginais. No lugar do respeito ao direito das mulheres de decidir sobre a
própria concepção, coloca-se como diferença radical de perspectiva a indução ao aborto, pelo
Estado, como linha auxiliar no combate à violência.
São teses que aparecem com recorrência no debate público e que, embora com nuances,
mantêm o mesmo sentido. Uma das mais célebres foi dada anteriormente no governo de
Paulo Maluf, em São Paulo, no qual o GAP (Grupo de Assessoria e Participação do Governo do
Estado) elaborou o documento Sobre o Censo Demográf ico de 1980 e suas curiosidades e
preocupações . Nele, é apresentada a proposta de esterilização massiva de mulheres pretas e
pardas com base nos seguintes argumentos: De 1970 a 1980, a população branca reduziu-se
de 61% para 55% e a população parda aumentou de 29% para 38%. Enquanto a população
branca praticamente já se conscientizou da necessidade de se controlar a natalidade (...), a
população negra e parda eleva seus índices de expansão, em 10 anos, de 28% para 38%. Assim,
teremos 65 milhões de brancos, 45 milhões de pardos e 1 milhão de negros. A se manter essa
tendência, no ano 2000 a população parda e negra será da ordem de 60%, por conseguinte
muito superior à branca; e, eleitoralmente, poderá mandar na política brasileira e dominar
todos os postos-chaves a não ser que façamos como em Washington, capital dos Estados
Unidos, onde, devido ao fato de a população negra ser da ordem de 63%, não há eleições .
O documento se tornou público graças a denúncia feita na Assembléia Legislativa de São
Paulo pelo então deputado Luis Carlos Santos, do PMDB-SP, em 5.8.1982. Trouxe à luz essa
concepção de instrumentalização da esterilização como política de controle de natalidade dos
negros denunciada internacionalmente pelo Relator Especial sobre Racismo da ONU, após sua
visita ao Brasil em 1995.
Se o governador Sérgio Cabral ocupou-se em explicitar que as mulheres das favelas devem
ser objeto de uma política eficaz de controle da natalidade via facilitação do aborto pelo
Estado, o seu secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, tratou de estabelecer
a diferença do valor de cada vida humana no Rio de Janeiro, o que provavelmente estabelece
nessa lógica nefasta quem pode viver e quem deve morrer, ou nem mesmo chegar a viver. Em
comentário sobre o fato de que os traficantes das favelas das zonas Oeste e Norte do Rio
estariam se deslocando para as favelas da Zona Sul como reação às ações que vêm sendo
realizadas pela polícia naquelas áreas, o secretário vê, nesse deslocamento dos traficantes,
dificuldade adicional para o seu combate.
Segundo ele, é dif ícil a polícia ali ent rar, porque um t iro em Copacabana é uma coisa. Um
tiro na [favela da] Coréia, no complexo do Alemão [nas zonas Oeste e Norte,
respectivamente], é outra (...). Uma ação policial em Copacabana tem uma repercussão
muito grande, porque as favelas e os comandos estão a met ros das j anelas da classe média .
Ora, se nas zonas Oeste e Norte, as favelas e os comandos estão em j anelas frentes umas às
outras, ou lado a lado, isso pode significar que são partes integrantes de um mesmo todo e o
favelado civil e o traficante seriam indistinguíveis para efeito da repressão e violência
policial. Tanto bandidos como policias sabem o que o civil favelado nem policial nem
traficante vale: nada! Pode ser abatido como mosca por ambos os lados. Ir para a Zona Sul
como estratégia de sobrevivência ou redução da letalidade dos confrontos entre bandidos e
policiais é uma prerrogativa que apenas o bandido tem. O favelado civil, ao contrário, não
tem para onde ir, está condenado a ser o efeito colateral dessa guerra insana.
Michel Foucault demonst rou que o direito de fazer viver e deixar morrer é uma das
dimensões do poder de soberania dos Estados modernos e que esse direito de vida e de morte
só se exerce de uma forma desequilibrada, e sempre do lado da morte . É esse poder que
permite à sociedade livrar-se de seus seres indesejáveis. A essa estratégia Michel Foucault
nomeou de biopoder, que permite ao Estado decidir quem deve morrer e quem deve viver.
E
o racismo seria, de acordo com Foucault, um elemento essencial para se fazer essa escolha. É
essa política de extermínio que cada vez mais se instala no Brasil, pelo Estado, com a
conivência de grande parte da sociedade.
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