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 Extraído do Livro ''O Caminho das Pedras - A Saga do Pessoal do Ceará''
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RAIMUNDO FAGNER - PECADO VERDE
Gravadora:
BMG (Nº V7432140044-2)
Lançamento: 1996 (CD)

 

Pecado Verde (Raimundo Fagner e Fausto Nilo)
Pra Quem Não Tem Amor (Fagner
e bel Silva )
Letras de Canção (Dominguinhos e Fausto Nilo)
Volto ao Sul (vs.: Fausto Nilo/Astor Piazzolla e Fernando Solanas)
Letras Negras (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo)
Recusa (Herivelto Martins)
Canção Em Dois Tempos (Vital Farias)
Autonomia (Cartola)
Apaixonadamente (Francis Vale e Stélio Valle)
Um Vestido e Um Amor (
Fito Paez/tradução: Fagner)
Mucuripe (Fagner e Belchior)

 

        1996 marcou os 23 anos de carreira artística de Raimundo Fagner com o lançamento do seu vigésimo álbum solo. Batizado de ''PECADO VERDE'' (BMG, Nº 7432140044-2), embora na capa conste somente o nome ''RAIMUNDO FAGNER'', lançado no outubro, o disco foi produzido pelo próprio cantor com a ajuda de José Milton. Gravado e mixado por Marcelo Sabóia no AR Estúdios, com arranjos de Chico de Moraes, Cristovão Bastos, Eduardo Souto Neto, e instrumental de Robertinho de Recife, Jamil Joanes, Don Chacal, Pedro Amorim, João Lyra, Dominguinhos,Walter Rios, Philipe, Luiz Antônio, Jurim Moreira, Tony Dias, Jorjão, Jurim Moreira, Mingo Araújo, Milton Guedes, Lia Gandelman, e arregimentação de cordas de Paschoal Perrota.
É um disco praticamente de intérprete. Das onze músicas Raimundo Fagner dividiu uma com Fausto Nilo (Pecado Verde) e outra com Abel Silva (Pra Quem Não Tem Amor).
        As outras músicas do álbum são Letras de Canção (Dominguinhos e Fausto Nilo), Volto ao Sul (versão de Fausto Nilo para Vuelvo al Sur, de Astor Piazzolla e Fernando Solanas), Letras Negras, (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo), Recusa (Herivelto Martins), Canção Em Dois Tempos (Era Casa, Era Jardim), de Vital Farias, Autonomia (Cartola) e Apaixonadamente (Francis Vale e Stélio Valle). Raimundo Fagner fez também uma tradução para Un Vestido y Un Amor, de Fito Paez (Um Vestido e Um Amor) e recriou pela sexta vez Mucuripe, dele e Belchior.



        ''
Voltei com Mucuripe porque essa música foi a que mais marcou a minha vida'', relembra Fagner. ''Quando eu recebi a poesia e coloquei a música, já estava sentindo que tinha uma coisa maior dentro da gente. Sempre que mostrava essa música, ela causava espanto nas pessoas. Na hora em que acabei de fazer, imaginei o Roberto, que era a maior referência para mim, gravando essa música. Eu fiz uma gravação bem artesanal. Entrei no estúdio, toquei o violão e depois o Ivan Lins colocou aquele arranjo belíssimo. Mas era uma gravação ainda jovem. Com o tempo, senti a necessidade de fazer uma gravação no estilo dessa atual. Não sei se é um pouco de saudosismo, mas no momento eu queria regravar Mucuripe. E fiquei muito satisfeito porque saiu como eu queria. Eu não sei, é um negócio meio confuso na minha cabeça. Apesar de compor nas horas vagas, gosto mesmo é de cantar. E sempre procuro cantar aquilo que é bom, é uma maneira de buscar a nossa cultura. Quando digo que somos um País moderninho quero dizer que as multinacionais estão aí para confundir. Porque elas trazem muita coisa de fora e não têm cuidado com as que são feitas aqui. A gente vai deixando o tempo passar e vai se distanciando de cantar um autor de grande talento.
        O repertório foi quase todo escolhido por mim, mas o Zé Milton deu toques decisivos como Recusa, de Herivelto Martins, Vuelvo Al Sur, parceria de Piazzolla com o cineasta Fernando Solanas e Letras Negras, Geraldo Azevedo e Fausto Nilo. Tudo isso foi resultado do entrosamento entre artista e produtor.
        O José Milton é um profissional extremamente competente, já atuamos juntos em outras oportunidades. O fato dele estar cada vez mais envolvido com esses projetos especiais como as caixas de CD’s de Ângela Maria e Nelson Gonçalves e o disco-tributo a João do Vale me deu a certeza de que ele deveria produzir o álbum. Não quis saber de produtores 'moderninhos', o Zé era o único que poderia assinar esse trabalho.
        Esse negócio de interpretar as pessoas é um negócio difícil. Eu, por exemplo, faço o que eu coração manda. Tenho compromissos, contratos com multinacionais. Tenho compromisso com o povo. Sou um artista que já chegou a vender um milhão de discos, duas, três vezes. Então, não é uma simples coisa de amador. É preciso saber que canto para o povo. No início, criticavam-me porque eu cantava para universitários, depois passei a cantar Borbulhas de Amor, depois Cabecinha no Ombro. Mas tenho um compromisso com o povão. As pessoas me criticam porque cantei 'pra cabeça' e hoje canto para o coração. Canto para o sentimento brasileiro, um povo simples, humilde, que não tem discernimento para certos efeitos poéticos, determinadas metáforas da poesia. Eu tanto posso fazer uma coisa como outra. Hoje, estou voltando, querendo resgatar a cultura nordestina. Fazem uma cobrança comigo pelo fato de ter gravado muito com Luiz Gonzaga, e hoje não se tem uma voz nordestina, capaz de puxar esse cordão, dando seqüência. Estou com força, assimilando essa cobrança. Mas acho que não é pela cobrança, e, sim, pelo vazio que existe, pela invasão baiana, mesmo sendo do suposto Nordeste, pois não acho que a Bahia seja Nordeste. E o que a gente se ressente é de um peso, de uma cultura nossa, local. O Ceará tem muito o que mostrar, e hoje estou me ressentindo. Mas o que a gente faz tem que ser intuitivo, e não em cima de cobrança. As pessoas acham que mudamos. Mudar é bom, mudar para melhor, para purificar, para descobrir novos valores. E não ser vigiado pelos críticos, pelo público. Acho que o artista tem que ter liberdade de fazer aquilo que ele quer e arriscar. No Brasil, temos certa dificuldade porque as pessoas querem enlatar, rotular. Você é isso e se fugir disso, não presta. Agora, se vem um americano aqui, logo se diz que ele é maravilhoso porque canta balada, rock. A gente tem um certo preconceito com o nosso povo. Sou uma pessoa muito livre, foi escola do meu pai, que saiu do Líbano e veio para cá. Eu fui na Espanha, nos Estados Unidos, vou na França. Vou a qualquer País, gravei com todo mundo. Isso é uma liberdade. Não sigo muito, não dou ouvido a essa necessidade das pessoas de te rotular. Dizem: 'não, esse cara tem que cantar esse tipo de música'. Não concebo isso. Cantar é a melhor coisa do mundo, mais divino, mais sublime. O ato de cantar e ser correspondido pelo público, acho que é uma das coisa mais divinas que existem. Com três minutos, as pessoas se identificam com a mensagem de uma música. O ato de cantar é um privilégio, um dom divino.
        Os dois clássicos - Recusa, de Herivelto Martins e Autonomia, de Cartola, estão no disco, primeiro porque sou da antiga. Depois, são músicas que eu curti muito. Chega uma hora em que você tem a oportunidade de gravar coisas que gosta e deixar memória da música no ar. O Brasil é muito moderno tem muita gente querendo ouvir Cartola de uma maneira diferente. Enfim, é uma coisa de sensibilidade, de não querer perder a memória da música brasileira.''

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. Apaixonadamente foi gravada originalmente em 1988 pelos cantores cearenses Rossé Sabadia e Kátia Freitas no elepê ''LIBERADO'' da dupla Francis Vale e Alano Freitas. (Luzazul Produções, Nº 992.722-1).

discografia